Ao irmão da Natureza

Elegemos como inspiração do MOVE o irmão da Natureza, o querido Francisco de Assis.

E escrevemos este singelo texto, inspirado nos passos dele

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Por Rafael van Erven Ludolf.

A natureza é o grande palco da vida, onde se apresentam as mais variadas existências, cada qual com suas vestimentas, compondo uma grande sinfonia.

Nesse espetáculo, não há papel mais relevante, todos se complementam e são igualmente importantes. Cada ser é um intérprete divino, sendo a espécie humana apenas um entre os fios da teia da vida.

Louvar a beleza de cada ser que se apresenta no palco da Natureza, animado ou inanimado, vertebrado ou invertebrado, humano ou não humano – que importa? – é comungar com Deus. É vê-lo a cada instante, é sentir a sua presença constante, é reconhecê-lo na vida abundante, laboriosa e palpitante. Afinal, haveria para Deus algo desimportante, sem graça, insignificante?

Portanto, todo aquele que aprendeu a arte de contemplar, respeitar e cuidar da Natureza comunga com Deus.

O orvalho que brilha, o vento que sopra, a flor que perfuma, a abelha que zumba são todos convites divinos ao cuidado da Terra.

Como é admirável aquele que aprendeu a acariciar os animais, admirar as flores, os relevos, as paisagens… A comunhão nasce quando nos percebemos Natureza.

Sobre isso, quero exemplificar.

Certa vez conheci um homem, que pela maneira compassiva com que se doava a todas as criaturas, passou a ser chamado de Irmão da Natureza, pois para ele a forma de cada ser não limitava a sua capacidade de amar.

Como é admirável, em Francisco de Assis, a contemplação do irmão sol, lua e estrelas, do irmão vento, água, pessoas e animais…Seu louvor a Mãe-Terra.

Lá no Cântico das Criaturas, que Francisco compôs quase cego numa cabaninha de palha, até mesmo um novo verso fora acrescentado ao Sermão do Monte, “bem-aventurados os que sustentam a Paz, que por ti, Altíssimo, serão coroados.”

Sustentar é amparar, suportar, impedir de cair, escorar. Não bastava mais a virtude “bem-aventurados os pacificadores” declamada por Jesus naquela tarde, era preciso também “sustentar a Paz”.

O seu Cântico aos Irmãos ainda ecoa, apesar de. Como a nos convidar ao apreço e cuidado por cada pedaço de vida que palpita na Terra.

A vida de Francisco foi toda um chamamento para a construção de uma Cultura da Paz com todas as criaturas, humanas e não humanas.

Quando ele clamava pela Paz, diz seu primeiro biógrafo Tomás de Celano: “toda a sua pessoa era uma língua que pregava” e quando rezava “todo o seu ser era oração”.

Simples, afável e assertivo nas palavras, falava o necessário e ensinava, “pregue sempre o Evangelho. Se necessário use palavras”.

Nada era mais eloquente em Francisco do que o seu próprio exemplo.

A mística de Francisco pulsa, ainda hoje. Enquanto muitos violentam a fauna, a flora, os mares e rios e, portanto, a si mesmos, sua vida segue nos inspirando a fazer diferente.

Registrou Celano que “a todos os seres chamava irmãos” e “até pelos vermes tinha afeição”.

Já S. Boaventura, seu segundo biógrafo, narrou sua viagem por um tratado de paz com o Sultão Al-Kamil.

Francisco não viu no Sultão um inimigo, mas um irmão. Não quis tomar o seu território, mas dar as mãos.

O substantivo “irmão” no verbo de Francisco é a chave de compreensão que revela toda a sua mística. É porque não se tratava de palavra, mas de senso de comunidade multiespécie.

Na crença de Francisco, se há um só Pai, todos somos irmãos, humanos ou não.

Se Deus tudo fez, tudo é criação.

A Paz, porquanto, é força de sustento dessa união.

Lemos no Espelho da Perfeição, que “absorto no amor de Deus, vislumbrava perfeitamente a bondade divina (…) em todas as criaturas.”

Certo dia ele ouviu na capelinha de São Damião a voz de Jesus, que lhe disse: “Francisco, vai e reconstrói a minha igreja que está em ruínas”.

Sua igreja, feita de pessoas, pedras, rios, plantas e animais, Francisco buscava restaurar.

À irmã cigarra que “imediatamente lhe voou para a sua mão”, também não escapou do seu amor. Disse Francisco, “canta, minha irmã cigarra.”

Outros talvez violentariam a cigarra, que comete o crime de cantar e cumprir sua função na mãe natureza, enquanto muitas pessoas ainda não.

Ao lobo faminto, perseguido pelos habitantes de Gubbio, chamou-o afável, diferente daqueles que, armados, buscavam assassiná-lo. “Anda cá, irmão lobo! (…) eu quero fazer as pazes entre ti e eles.”

Idêntica afeição nutria pelos peixes. Como diz Celano, “se lhe era possível, devolvia à água, vivos, os peixes capturados, e recomendava-lhes que não se deixassem apanhar de novo”. Mesmo quando no lago de Rieti recebeu uma tainha de um amigo, “pegou o Santo na tainha e, cheio de alegria e ternura, saudou-a por irmã. Em seguida, restituiu-a às águas do lago”.

Eis a inspiração do Irmão da Natureza, que fez alguém registrar séculos depois a famosa oração, “onde houver ódio, que eu leve o amor.”

Precisamos deste espírito de restauração de relações multiespécies, para nos tratarmos uns aos outros, pessoas, animais, Natureza, como Irmãos.

Que a espiritualidade franciscana nos ajude a desenvolver a capacidade de habitar um mundo em comum, a perceber a dignidade e o valor próprio para além do humano.

Paz e bem.

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REFERÊNCIA:

FONTES FRANCISCANAS. São Paulo: Editora Mensageiro de Santo Antônio, 2005. Todas as citações sobre Francisco de Assis foram tiradas deste livro.

2 respostas
  1. Leandro Monteiro
    Leandro Monteiro says:

    Que belo texto! Uma leitura envolvente e cheia de encantos que desperta belos sentimentos e nos aproxima dessa alma extraordinária que é Francisco de Assis!

    Responder

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